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sábado, 6 de fevereiro de 2010

LEITURA PARA O CARNAVAL - 1

O autor desse blog produziu um livro ao qual chamou de “Alagados”. Quase ao final do mesmo, os antigos saveiros da Bahia são focalizados. É um assunto bem “cidade baixa”, portanto absolutamente dentro do contexto do blog.

Como estamos próximos do Carnaval e tem muita gente que não brinca, fica em casa, pensei que talvez fosse o momento exato de transcrevê-los para deleite dos que gostam de ler. Poderão até gostar, pois tem ilustrações e muita informação sobre essas tradicionais embarcações. Não custa nada!

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Depois da inauguração do hospital, Bené agora descansava. Estava tranqüilo, principalmente de relação a Calixto. A situação em que ficou o amigo chegou a ser preocupante. Agora ele trabalhava; tinha sua residência, a filha estava junta; o filho agora era político. Aos domingos os dois saíam a pescar de lancha. Iam para o alto mar. Firmino às vezes os acompanhava. Já não tinha mais o tempo de antigamente. Ficava feliz em ver os dois amigos juntos de novo. Pescando como sempre. Não queria atrapalhar a conversa dos dois.

Certo dia Firmino informou a Bené que um grupo de iatistas estava a recuperar velhos saveiros. Chegavam em dois Catamarãs e ficavam o dia todo numa barraca de praia, enquanto um velho marceneiro ia reconstituindo uma embarcação.

-Eles vêm sós?
- Não. Trazem a família. Mulheres e filhos. Todos tentam ajudar.
- E o que pretendem fazer com estes saveiros?
- Segundo um deles, querem reconstituir uma velha tradição: “Os saveiros da Bahia, ícone da cultura baiana, a mais típica embarcação brasileira”. Ainda eles, “estes saveiros têm uma perfeição náutica incomparável e uma absoluta pureza funcional”.

- Quando pescávamos nos Tainheiros os via passar garbosos, seu lastro ficava quase na linha d’água de tanta mercadoria que carregavam. Impressionava-me suas velas de içar.
- É. Também gostava deles. Como é que desapareceram de uma hora para outra? Haveria uma explicação?

- Há diversas hipóteses. Uma delas de que com o advento dos barcos a motor e outras embarcações mais sofisticadas, os saveiros foram perdendo espaço. Não tem muita sustentação. Sustentar-se-ia se os barcos a motor que surgiram, fizessem o mesmo que os saveiros faziam. Tal não aconteceu. Nenhuma outra embarcação foi usada para trazer as mercadorias que os saveiros traziam.

- É verdade seu Bené. Não tinha percebido este detalhe.

- O que realmente houve foi a ligação da Ilha de Itaparica com o continente pelos lados de Nazaré das Farinhas. A construção da ponte permitiu o escoamento de tudo por Nazaré, Santo Antônio de Jesus, daí seguindo para Feira de Santana e alcançando Salvador. Antes, tudo vinha nos saveiros. Contribuiu também o incêndio do antigo Mercado Modelo ocorrido em 1969. O mercado era o maior centro de abastecimento de Salvador. Os saveiros aportavam ao lado. Com o incêndio os comerciantes foram removidos para Água de Meninos, aonde os saveiros ainda tentaram um abastecimento pela Enseada do São Joaquim. Quando esses comerciantes retornaram, já nas dependências da antiga Alfândega, lhes foram exigidos que só vendessem produtos artesanais, com vistas ao turismo. Os saveiros foram esquecidos. Decorria o ano de 1971.

- Então seu Bené, esse foi o real motivo da extinção dos saveiros?

- Sem dúvida alguma. Transportar para quem? Para piorar a situação a Marinha proibiu o aportamento dos saveiros no antigo cais. Tinha planos de expansão de suas instalações na área, como realmente aconteceu.

- É verdade que os saveiros ajudaram na Independência da Bahia?

- Verdade. Em 1823 eles foram decisivos. Foi a bordo de centenas dessas embarcações que a frota de João das Botas combateu a esquadra de Madeira de Melo na Baía de Todos os Santos.

- Seu Bené, o senhor sabe é coisa.

- Gosto de ler como também gosto de ouvir. Também andava pelo Mercado naquela época. Quem não andava? Tinha muitos amigos saveiristas. Muitos morreram de desgosto. Seus barcos também morreram! Mas voltando aos nossos iatistas construtores, quantos saveiros já recuperaram?
- Mais ou menos uns seis. Vão realizar uma regata ainda este mês. Convidaram alguns saveiros que ainda resistem ao tempo aí pelas ilhas e recôncavo. Querem reunir de dez a vinte embarcações. Pretendem resgatar o passado.
- Com regata? Não acredito! É festa para um dia só. Quando acabar, volta tudo ao que era. Eles não podem nem pescar naqueles saveirões. Vão encalhar de novo na areia e voltar às suas canoas para pequenas pescarias, senão morrem de fome. De qualquer forma, gostaria de conhecê-los. Devem ser gente boa. Convide-os para almoçar no próximo sábado ou domingo.

Pedro Garra aceitou o convite. Disse que seria um prazer. Perguntou se poderia levar um amigo. Ficaria mais confortável.

Os dois chegaram à casa de Bené por volta das 11 horas. Ficaram impresionados com a beleza da residência.

- Este é o senhor Pedro Garra e este é seu amigo Sergey, Firmino fazia a apresentação.

- Convidei-os para lhes conhecer. Estou sabendo do trabalho de recuperação de antigos saveiros. Muito bonito! Gostaria de saber de seus planos. Sou homem do mar e tudo que se lhe diz respeito, é do meu mais vivo interesse, principalmente em Maré.

- Efetivamente estamos recuperando antigos saveiros a fim de resgatar velha tradição na Baia de Todos os Santos, quando estas ambarcações singravam por aqui transportando mercadorias de todos os tipos do recôncavo e das ilhas para Salvador, o maior mercado consumidor. Estamos esperançosos que eles voltem a circular. Falava Garra.
- Com regatas?
- As regatas são um recurso promocional. Estamos querendo chamar a atenção das autoridades. Também estamos fazendo palestras e exposições.
- Tudo bem, isto deve ajudar, mas se não houver uma razão econômica, de nada adiantará. É ela, razão econômica, que move o mundo.
- E o que o senhor faria, perguntou Sergey?

- Ainda não formei idéia a respeito, mas prometo ao senhor que a formarei. Estou aceitando o desafio, se é que se pode interpretar sua observação como tal.

- Os senhores aceitam uma cerveja? Temos também um tira-gosto de carapicu, intervinha Firmino no exato instante da incitação verbal.

Depois o grupo almoçou a moqueca de caçonete que Firmino havia preparado e pouco ou quase nada se falou à respeito durante o almoço, apenas foram feitos elogios ao sabor da comida. Firmino aproveitou para falar sobre o condomínio. Tentou vender alguma unidade para os iatistas e estes disseram que preferiam dormir em suas embarcações. Estavam mais acostumados.








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